Durante séculos, toda criança nasce com uma marca prateada no pulso indicando exatamente quando morrerá. Reis, mendigos, heróis e assassinos... ninguém jamais escapou da data gravada pela própria Mort
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A praça de Valen estava completamente silenciosa.
Nem mesmo as crianças corriam naquele dia.
Todos observavam o enorme relógio de pedra instalado no centro da cidade.
Quando os ponteiros marcaram exatamente meio-dia, uma velha sorriu.
Ela olhou para o próprio pulso.
— Finalmente...
Sua marca brilhou.
No instante seguinte, seus olhos se fecharam.
Ela caiu como alguém que apenas adormeceu.
Nenhum grito.
Nenhum sangue.
Era assim que a morte acontecia naquele mundo.
Sempre.
Exatamente na hora marcada.
Os moradores apenas abaixaram a cabeça.
Mais uma alma havia cumprido seu destino.
O sacerdote fechou o velho livro de registros.
— Que a Ordem seja preservada.
Todos repetiram a mesma frase.
— Que a Ordem seja preservada.
...
Na mesma cidade, bem longe da praça, um garoto de dezenove anos terminava de cortar lenha.
Seu nome era Kael.
Suas mãos estavam cobertas de pequenos cortes.
Ele limpou o suor da testa enquanto o velho Feron se aproximava.
— Mostre o pulso.
Kael congelou.
— Outra vez?
— Mostre.
Com um suspiro, ele levantou a manga.
Nada.
Pele limpa.
Nenhuma marca.
Nenhuma data.
O velho desviou o olhar rapidamente.
Mesmo depois de dezenove anos, ainda não conseguia encarar aquilo.
— Esconda isso. Sempre.
— Eu sei.
— Não, você não sabe.
Feron respirou fundo.
— Se descobrirem...
Não terminou a frase.
Não precisava.
Todos conheciam a história.
Séculos atrás existira uma criança igual.
Ela foi queimada viva antes de completar um ano.
Diziam que pessoas sem destino traziam o fim do mundo.
Kael nunca acreditou nisso.
Até aquela noite.
...
O céu ficou completamente vermelho.
Não era pôr do sol.
Era sangue.
Milhares de pessoas saíram de suas casas olhando para cima.
Algo enorme cruzava as nuvens.
Parecia uma sombra.
Não.
Eram páginas.
Milhões delas.
Como folhas arrancadas de um livro gigantesco.
Cada página continha milhares de nomes.
Datas.
Vidas.
Quando tocaram o chão...
Começaram a queimar.
As marcas nos pulsos de toda a cidade desapareceram.
Uma mulher gritou.
Um homem caiu de joelhos.
O sacerdote tremia.
— Isso... isso é impossível...
Kael pegou uma das páginas.
No topo havia apenas uma frase.
"O Livro da Morte foi aberto."
Logo abaixo, escrito em tinta negra, havia outro texto.
"Procura-se o homem sem data."
Seu coração parou por um segundo.
Na parte inferior da folha havia um retrato.
Era ele.
Nesse exato instante, os sinos da cidade começaram a tocar desesperadamente.
Não anunciavam uma morte.
Anunciavam uma caçada.
E, pela primeira vez na história da humanidade...
A Morte parecia estar procurando alguém.
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